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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Às mães

Ontem, domingo, celebrou-se mais um dia da mãe. Mãe que é, ou deveria ser, um porto seguro, onde nos aquecemos, onde procuramos abrigo quando o mundo cá fora parece desabar. Existem mães inspiradoras que fazem das tripas coração para dar o melhor aos seus filhos, em muitas das vezes para darem aos seus filhos aquilo que elas próprias não tiveram.

Hoje escrevo às mães inspiradoras que me rodeiam, que me servem de exemplo todos os dias, que me ajudam a construir a pessoa que vou sendo e que me motivam a ser sempre melhor. Para mim e para as minhas filhas. 

Obrigada!

Às mães heroínas que não usam capa e que têm super poderes e que encerram em si a possibilidade de corar feridas de forma super rápida, sejam feridas na pele que curam com beijinhos, ou as feridas da alma que curam com abraços. 

Às mães que por força da vida se desdobram e cuidam da casa, dos filhos, do cão, que trabalham e pensam em tudo sozinhas porque o pai está a trabalhar a quilómetros e quilómetros de distância. São  capazes de nos dar o seu melhor sorriso mesmo que muitas vezes estejam exaustas e cheias de vontade de chorar. Afagam os seus filhos e entregam-se a eles como que um ninho onde é possível encontrar conforto, mimo e amor, muito amor. São mães capazes de gerir tudo sozinhas como se fossem malabaristas cheios de experiência. Podem ter pouco tempo para elas próprias mas mesmo que estejam despenteadas, com olheiras e cansadas iluminam qualquer sala onde entram!

Às mães que lutam com bravura contra as mudanças que a vida muitas vezes traz e mesmo que isso doa na alma continuam a dar o seu melhor aos filhos, continuam a sorrir-lhes mesmo que se sintam desfeitas por dentro. Que têm os seus filhos como máxima prioridade tentando rodeá-los de amor como se fossem uma coruja que com as suas asas cerca a sua cria de forma a que esta sofra o mínimo possível. São mães-exemplo de quem os seus filhos falam todos os dias com um orgulho enorme. Aquelas mães que têm a calma na voz mesmo quando precisam de ser mais assertivas. Têm sempre a palavra, indicam-nos por onde ir e arranjam sempre uma solução para as questões que nos surgem. Criam filhos capazes de sonhar com tudo aquilo que desejarem, mostram-lhes que podem ser no mundo aquilo que quiserem. Ensinam-lhes a empatia, o respeito e que o amor é o motor para tudo.

Às mães que salvam vidas, seja de forma figurativa ou quando seguem os seus sonhos e fazem do ato de cuidar do outro a sua motivação diária! Que para cuidarem de todos nós se coíbem muitas vezes de estar presentes em momentos especiais. Mas que saibam que são elas o maiores exemplos de compaixão e respeito pelo outro, que podem dar aos seus filhos. Há lá maior prova de amor que dar aos outros tudo aquilo que temos, mesmo nas alturas em que se sentem mais cansadas,

Às mães, desta vida e de outras, que colocam nas mochilas dos seus filhos bilhetinhos com notas que sabem com toda a certeza que irão fazer a diferença. Que os ensinam a respeitar os outros mas ao mesmo ensinam a necessidade de também eles se fazerem respeitar. Que estão sempre presentes nos momentos mais importantes mesmo que nem sonhem como aquela frase que disseram fez diferença, para muito melhor.

Às mães que deixaram o conforto do seu país, que procuraram um novo local para viver com o foco único de proporcionar uma vida e um futuro melhor aos seus filhos. Mesmo que isso muitas vezes signifique a incerteza de não saber o amanhã, ou aquilo que a vida lhes reserva.  Mães que acolhem, que dão colo e carinho. Aos dela e aos de fora. 

Às mães que cuidam dos seus filhos enquanto as lágrimas lhe escorrem do rosto por terem à sua frente uma dura realidade e todos os dias terem que lutar para lhes fazer frente, mesmo que por dentro estejam destroçadas.

A estas e a todas as outras, que são amigas, que são colo e porto seguro.

Obrigada por serem mães inspiradoras!

Feliz dia, ontem, hoje e sempre!

Imagem Bluebird Joalharia


segunda-feira, 19 de abril de 2021

"Mulher séria não tem ouvidos"

 Este é aquele assunto sobre o qual nunca me vou fartar de falar. Porque continuamos a precisar de informação, precisamos de continuar a desmistificar que a vítima não é a culpada do assédio e que usar uma blusa decotada, ou uma mini saia não dá o direito a ninguém de vomitar seja aquilo que for.

Não vi a entrevista da Sofia Arruda ao Daniel Oliveira mas pelos comentários que fui lendo durante o fim de semana constatei mais uma vez que ainda estamos muito aquém daquilo que era suposto. E sabem o que me assusta mais? É que os comentários mais atrozes são feitos por mulheres, são feitos por mães, tias, avós onde a informação que querem passar é que a culpa do assédio sexual é nossa. Nos últimos dois dias li coisas como "querem ser faladas então inventam de tudo", "se é verdade porque não denunciou na altura?" "porque é que não diz o nome de quem a assediou?". Só me ocorre uma palavra para classificar isto. Nojo.

Porque é que a vítima tem que ser sempre a culpada, porque é que as questões são colocadas a quem sofreu? Porque é que duvidamos em vez de apoiarmos e mostrarmos empatia? Estamos a ensinar as nossas meninas a não falarem caso isto lhes aconteça, porque provavelmente vão questioná-las, vão perguntar que sinais deu quando não existem sinais que justifiquem a invasão do nosso espaço. 

A Sofia teve a coragem de se expor e contar a sua história ainda que sem referir nomes, a Sofia precisa de saber que é apoiada e que tem pessoas do lado dela, sobretudo mulheres. E se não for assim de que nos vale falarmos de feminismo se quando as mulheres precisam das mulheres são empurradas para baixo?

Já ouvi frases, uma dirigidas a mim outras em contexto de conversa, que enquanto mulher e mãe de duas meninas me magoaram. "Mulher séria não tem ouvidos", "não estou para ouvir falar da minha filha como ouço falar das outras por isso não usas essa saia", "se sais assim vestida é porque estás a querer provocar", "estás a pedi-las, depois não queixes". 

E sabem porque é que me magoa? Porque eu deveria ter uns 10 anos quando comecei a ser vítima de assédio sexual. Eu era uma criança e ouvi as coisas mais nojentas que possam imaginar e que me cortam o coração só de as lembrar. Ouvi coisas que ninguém deve ouvir, fui convidada várias vezes a ir a casa dele. Contei, contei a quem pude, os vizinhos também sabiam. Sabem quem acreditou em mim? Ninguém. Ninguém acreditou em mim porque "o que é que um homem com aquela idade iria querer contigo", "tu implicas com o homem e agora estás a inventar isso, ele até é simpático e está sempre a dar fruta das árvores dele". Ele tinha idade para ser meu avô. Era porco e ainda hoje consigo sentir nojo dele e tudo aquilo que me disse.

Sabem o que é que a ex mulher dele disse? Que ele era capaz disso e de muito mais. Sabem quem passou a acreditar? Ninguém.

Anos depois um chefe passou a mão nas minhas costas, pedi-lhe que não o voltasse a fazer. Sabem o que aconteceu? O meu contrato não foi renovado.

Portanto, validem as denúncias que vos são feitas. Estejam atentos aos sinais que vos são dados e que possam indiciar algo que não é normal mas acima de tudo, por favor não ignorem a denúncia de uma criança.

Apoiemos as "Sofias" que por aí andam e que muitas vezes não denunciam porque não se querem expor com receio de serem julgadas e descredibilizadas. 

Eduquem as vossas filhas de forma a que ninguém as faças pensar que aquele toque que as deixa desconfortáveis é normal e faz parte do crescimento. 

Eduquem os vossos filhos de forma a que também eles denunciem, porque este assunto não exclusivo de meninas, a que apoiem a colega que lhe contou algo que não parece normal. Ensinem os vossos filhos a respeitar.

Eduquemos os nossos filhos que o assédio não é normal.

E por último, sejam mulheres que apoiam mulheres.

foto google


quarta-feira, 7 de abril de 2021

Falemos de saúde mental

 No dia mundial da saúde importa falar do seu parente pobre em portugal, a saúde mental. 

Considerada por muitos ainda um tabu em grande parte por serem dores que se sentem, muitas vezes até mais que as físicas, mas não se conseguem ver continuam a ser desvalorizadas sendo que os apoios ao seu tratamento continuam a ser precários. 

O serviço nacional de saúde dispõe de um número de psicólogos claramente inferior ao que seria necessário e aqueles que lá estão trabalham muitas vezes com poucas condições e com a sensação de não conseguirem dar o melhor aos seus pacientes.

Quem fala da área da psicologia fala também da área de psiquiatria, onde as consultas são poucas, altamente espaçadas no tempo e dadas quase "em cima do joelho" porque a procura é muito superior que a oferta.

Segundo uma análise feita pelo "Mundo Ageas", pertencente à seguradora com o mesmo nome, no mês de Janeiro houve um aumento da procura de consultas de psicologia na ordem dos 289% face a Dezembro de 2020. 

Os dados são claros, o segundo confinamento levou a que um número vasto de pessoas procurasse apoio junto de profissionais. Ainda assim a maioria deste apoio é alcançado a titulo pessoal já que o serviço público não dá resposta. 

O ser humano é um ser naturalmente social, necessita de interagir, de conviver e de andar na rua. Após um ano de 2020 com vários meses de confinamento em que a larga maioria de nós ficou em casa, tenha sido em teletrabalho, por encerramento das escolas ou ambos, foi possível ir desconfinando, muitos de nós gozaram umas férias mas mal tínhamos voltado a respirar com mais alguma folga, voltámos a um novo confinamento. E é claro que todo este turbilhão de mudanças tem que causar dano. Juntando a isto perdemos vidas num número tão elevado que nunca imaginámos. E se a este facto juntarmos meses de isolamento social, restrições mais ou menos apertadas e a falta dos afetos, o resultado pode ser uma bomba prestes a explodir a qualquer momento.

Ansiedade, ataques de pânico, medo do futuro foram alguns dos sintomas que surgiram. E luto, surgiram muitos processos de luto.

Falemos então do luto em pandemia. O luto é um processo complicado, difícil de ser vivido e gerido mas que pode ser saudável ou não. É um processo pelo qual teremos sempre de passar quer queiramos quer não. Se num mundo antes "normal" existia sempre a possibilidade deste luto não ser feito de forma adequado e se poder transformar em algo cada vez mais doloroso e até perigoso para o próprio, num ano de pandemia o processo ganha todo um peso extremamente difícil de carregar. Em Março de 2020 quando começaram a surgir os primeiros casos e as normas mandavam que os funerais fossem cada vez mais restritos sendo que o funerais cujos óbitos tinha sido por covid eram autênticos funerais relâmpago, assistimos a inúmeros processos de luto que ficaram "pendurados" porque não houve uma despedida. Apesar de atualmente a norma ter mudado, existem rituais que não foram retomados como a possibilidade de tocar, de estar próximo, atos estes tão nossos e tão entranhados na nossa cultura.

Há um ano começavam a nascer as dúvidas sobre quem seria realmente a pessoa na urna já que esta não seria aberta em momento algum e esta não confirmação, esta não visualização do corpo aumenta a dificuldade de transição da fase de negação tão característica do processo lutuoso. 

Importa então quebrar tabus, quebrar barreiras. A dor emocional, psicológica deve ser tão valorizada quanto a dor física. Ao contrário do que ainda se ouve dizer, quem procura um psicólogo não é "maluco" mas sim consciente de que o seu bem estar emocional é tão importante como o bem estar físico. 

De forma a ser um apoio, a ordem dos psicólogos portugueses apresenta hoje o novo portal "Eu sinto.me" onde disponibiliza informação e recursos relacionados com a saúde psicológica. 

É um portal direcionado a todos nós estando disponível todos os dias, 24h por dias. Neste mesmo portal poderão encontrar a ANA, uma assistente virtual que tem como intuito propor informação adequada aquelas que são as nossas necessidades. 

Estima-se que após a pandemia de Covid-19 possamos estar perante uma nova pandemia, mais silenciosa e igualmente mortal, a pandemia da saúde mental.

Importa então (re)lembrar:

Se não se sente bem, procure ajuda de um profissional.

Esteja atento/a aos sinais de que algo não está bem consigo e sobretudo não sinta vergonha. 

💓

Imagem:


domingo, 28 de março de 2021

Ronaldo e a braçadeira

 Olá Ronaldo,

Sou a Diana, tenho 33 anos e sou, tal como tu, Portuguesa.

Vi o que se passou ontem no jogo, aquele golo que te foi, erradamente, anulado e que tinha significado a vitória da nossa seleção. Vi esse erro do árbitro e vi também o teu erro e não pude deixar de ficar triste e desiludida. 

Olho para a braçadeira de capitão como um voto de confiança, respeito mas também responsabilidade naquele que a usa. O capitão deve ser aquele que dá o exemplo, que puxa a equipa para a frente e que lhes mostra que há sempre um amanhã. Eu acredito que não deva ser fácil ver anulado um golo que claramente era válido, tenho toda a certeza que tens o maior orgulho naquilo que fazes e bates no peito por representar as cores da nossa seleção. Mas também cometes erros como qualquer um de nós, também te sentes triste e desiludido, também sentes a revolta e a injustiça. A diferença entre ti, o Cristiano Ronaldo, o melhor do mundo, aquele que ultrapassou Pelé, que chorou na final do europeu de 2016 porque saiu lesionado e não jogou até ao fim, é que tu influências massas. Tu és um exemplo para muitos meninos, jovens e adultos que olham para ti e desejam um dia ser assim. A tua responsabilidade é imensa e é por esse motivo que atirar uma braçadeira de capitão não pode ser considerado um ato consequente da raiva e frustração que estavas a sentir. Ao deitares a braçadeira ao chão, não te voltaste contra o árbitro, voltaste-te contra nós e contra a nossa bandeira.

Ronaldo, haverá sempre um amanhã e tu serás sempre um campeão ♥️

                           





    Foto: getty images



sexta-feira, 19 de março de 2021

" Text me when you get home"

 


Foto: Reuters/Hannah McKay


Como educo as minhas filhas para a liberdade se continuamos inseridos numa sociedade que acusa a vítima dos crimes sobre ela praticados? E quando essas acusações vêm maioritariamente de mulheres? Mulheres que não apoiam mulheres? "Se não quer ouvir coisas não devia usar uma saia tão curta, não devia usar uma blusa tão decotada".
Eu própria cresci a ouvir, de uma mulher, que devia ter noção do que vestia para não ser "falada". Como dizer às minhas filhas que podem vestir o que quiserem sem que isso dê a alguém o direito de lhes tocar? De lhe direcionar qualquer palavra?
Como passar às minhas filhas a confiança de andarem na rua com tranquilidade se quem nos deveria proteger é também quem nos ataca?

Sarah Everard foi raptada e assassinada quando apenas se dirigia para sua casa. Por um homem. Por um policia. Por um policia. Por alguém que a deveria proteger. 

Mais tarde, mulheres foram arrastadas enquanto prestavam a sua homenagem a Sarah. Foram arrastadas. A comissária-chefe da Polícia Metropolitana de Londres recusou demitir-se perante a polémica causada após a atuação dos seus agentes. "Estavam só a fazer o seu trabalho".

Foto: Reuters/Hannah McKay 

Entretanto continuamos a ler que a culpa foi de Sarah, afinal quem a mandou andar na rua à noite, sozinha e ainda por cima durante a hora de recolhimento?

Até quando? 



                                                   Foto: Reuters/Hannah McKay